A Criadora

Aqui estou eu, de regresso a casa, no mesmo cantinho da cozinha que me viu aprender a ler e a escrever, que observou enquanto me apaixonava por Matemática e procurava significado por entre as estrofes de José Régio. Rodeio-me pelas mesma paredes que silenciosamente me abraçaram enquanto as mãos me tremiam, enquanto chorava, enquanto trocava as primeiras mensagens de menina apaixonada e construía amizades que haviam de ficar para a vida. Cresci aqui, e sinto que, de certo modo, regressar foi a melhor coisa que me podia ter acontecido.  
40 dias se passaram desde que deixei para trás a cidade que me seduziu, uma acelerada Lisboa, de cabelos soltos e sorriso mordaz. Lisboa essa que me mostrou o mundo, mas que reabriu feridas antigas que saram agora vagarosamente. Estes últimos tempos deram-me a calma necessária para pensar, longe do alarido e das distracções de uma vida cheia. Percebi, então, que à medida que me encantei pela capital e por aqueles que nela me rodeiam, fui lascando bocadinhos de mim, minimizei-me de forma a encaixar num molde do que achava ser o espectável, o correto. E a culpa não é de ninguém senão minha, que permiti aos meus medos e inseguranças agarrarem-me pela garganta, sofacando-me silenciosamente. E digo-vos, essa é uma morte cruel, para uma miúda cheia de sonhos...
Estes vírus, quer queiramos quer não, veio mudar o mundo. Pouco será igual, pelo menos por uns tempos, que a memória é fraca e os traumas recalcam-se com facilidade. Ainda assim, também eu decidi tentar mutar-me. Estou farta de ter medo, estou farta de ter pena, estou falta de culpar os Universo pelo que corre mal. Decidi tomar as rédeas da minha vida. E como dizia a música "hoje é o primeiro dia do resto da [MINHA] vida".

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